Frank Ocean: nova atitude hip hop

Quando revelou a sua bissexualidade, ao afirmar, no seu blogue no Tumblr, que a sua primeira paixão foi um homem, Frank Ocean não esperava que a discussão que se gerou à sua volta fosse mais em torno das opções sexuais, do que da música. Ingenuidade ou pura manobra de marketing para promover o disco de estreia, Channel Orange, a verdade é que, apesar de uma confissão destas já não ser uma grande novidade no mundo da música, no universo do hip hop e do R&B a homossexualidade ainda é um tema tabu.

Além dos telediscos de consagrados como Kanye West ou 50 Cent cheios de mulheres sexy, também os rappers mais novos alimentam este mundo de clichés heterossexuais agressivos e homofóbicos. Prova disso são as canções do jovem colectivo Odd Future, que tem no irreverente Tyler, The Creator a sua figura mais destacada e que Frank Ocean também integra. Contraditório? Um pouco. Daí tanto falatório. Mas também é certo que os temas dos Odd Future a que Ocean, de 24 anos, empresta a voz são os menos controversos e os mais melancólicos.
Em entrevista ao Guardian, o artista não explica esta incoerência, mas garante que a revelação da sua bissexualidade só surgiu como medida de antecipação do que aí vinha: as letras explícitas de Channel Orange. Cumprindo a boa tradição do hip hop, os temas são abordados sem reservas, mas em vez dos palavrões habituais, aqui há elaboradas confissões amorosas tanto a mulheres, como a homens.
Ultrapassado o contexto sexual, o único embalo que o registo precisa é o de ser ouvido sem preconceitos. A haver alguma ideia pré-concebida é a de que Frank Ocean fez um brilhante disco de estreia, onde a qualidade da escrita e da composição está muito acima daquilo que a música comercial tem actualmente oferecido.
Assumindo a sua idade e a forma como a sua geração comunica, Channel Orange foi construído como uma página de uma rede social, com muitos interlúdios a interromper as canções e onde se misturam excertos da vida quotidiana (uns densos outros mais ligeiros), histórias sobre gente real ou fantasias impossíveis de acontecer, ideias inacabadas, citações descontextualizadas... São muitas e diversas as camadas e texturas que criam o universo de Frank Ocean.

Uns pós de Prince

Sobre a interpretação vocal há um charme rejuvenescedor, com memórias de Prince a percorrer o álbum do princípio ao fim, sendo o orelhudo ‘Lost’ o melhor exemplo das semelhanças entre os dois artistas. Na composição, o R&B é o rei da festa, com o hip hop a sobressair muitas vezes. Há ainda várias ‘piscadelas de olho’ ao funk, à pop e ao rock, numa narrativa rica. E depois há a escrita: inteligente, sedutora, aveludada com jogos de palavras e metáforas certeiras a unir as ideias (oiça-se com atenção ‘Pyramids’, canção de quase dez minutos sobre como Cleópatra podia ser uma prostituta dos tempos modernos).
Em 2005, quando abandonou a sua terra natal, New Orleans, depois do furacão Katrina ter destruído a casada família e o seu estúdio caseiro, Frank Ocean mudou-se para Los Angeles para perseguir o sonho da música. Depois de bater a várias portas, conseguiu entrar no circuito ao vender letras a nomes como Justin Bieber e Beyoncé. Mas só no ano passado – já tinha lançado sozinho e de forma gratuita na internet Nostalgia, Ultra (compilação de canções originais, gravadas de forma artesanal em casa) –, quando participou em duas faixas de Watch the Throne, disco de KanyeWest e Jay-Z, é que os dados foram verdadeiramente lançados. E ainda bem que assim aconteceu, porque Channel Orange é uma preciosidade que merece ser ouvido com máxima atenção.

in Sol

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