Mr. Dheo - o 'writer' que transformou o 'graffiti' num negócio

Mr. Dheo volta a ter destaque, desta vez numa reportagem da revista NS que acompanha o Jornal de Noticias. A reportagem tem o nome "o 'writer' que transformou o 'graffiti' num negócio", e foi realizada por Vanessa Rodrigues.

"É o writer português com maior projecção no momento. É do Porto, tem 25 anos, autodidacta, vive do graffiti, esteve na primeira Bienal de São Paulo em 2010 e tem clientes de peso na agenda. Não quer que lhe divulguemos o rosto, nem o nome do BI, apesar de andar por aí, pela net."

As calças beges têm salpicos de tinta vermelha, há uma aliança de namoro no anelar, os dedos estão enfarruscados de spray preto. E o desenho da T-shirt apresenta-o antes que ele diga quem é: Vand-Artist. Saberíamos mais tarde que foi desenhada por ele: Mr. Dheo, 25 anos, dois metros de altura, writer profissional, vila gaiense. A NS" viu-lhe o rosto, terno, jovem, de olhar sereno. Para a foto prefere um certo anonimato. Como no nome. Uma espécie de marketing. «Homem-sem-rosto»: ainda que a imagem e o nome estejam à solta na internet. «Deve dar jeito ser assim alto, chegas onde queres para pintar», quebramos o gelo, baixamos a formalidade, gracejando com um dos nomes mais propalados, actualmente, do graffiti nacional. Diz não ter «noção» desse reconhecimento, embora de uma simples pesquisa na internet saiam inúmeras referências e atributos como «artista compulsivo» e «autodidacta». E uma imagem de marca: www.mrdheo.com.Mr. Dheo não tem formação artística, começou «a sério» aos 15 anos. Aos 3, diz a lenda, que desmistifica como sendo verdade, já recortava letras do jornal, e hoje vive do graffiti. Empresário por conta própria. Chegou a estar na incubadora de negócios criativos da Fundação de Serralves.O artista de rua diz que hoje, distante da «fase louca da adolescência», é «muito caseiro». «Tenho uma relação estável, uma família unida, tenho a sorte de ver os meus sobrinhos todos os dias e é isso que me preenche.» Tomamos nota: é daqui que lhe vem a inspiração. E desde já desmistificamos um erro comum quando se fala desta arte: quem faz graffiti é writer; não «graffiter»!Pede que o guiemos na entrevista, embora seja ele, aqui, o orientador pelos seus lugares de referência. Sai-lhe, espontâneo, um sorriso terno. E a expressão jovem só endurece para criticar a forma como se olha cá, em plano picado, para o graffiti. «Marginal», lato senso, diz, seco. «A arte não faz de nós marginais», acrescenta, perdendo a conta às vezes em que foi abordado pela polícia por estar a pintar paredes. E, no caso dele, as pinturas são rostos de hiper-realidade fotográfica. Auto-retratos, também, caras que parecem querer sair da parede e entrar-nos na vida.O ano passado deixou a marca delas nos subúrbios de São Paulo, quando foi convidado para ser um dos artistas da 1.ª Bienal de Graffiti Fine Art. O graffiti reconhecido numa das maiores metrópoles da América Latina, berço de nomes mediáticos da arte como Osgemeos (com trabalhos no MOMA em Nova Iorque e no Museu Berardo). Mas os muros de Salvador da Bahia e Manchester também têm assinatura a spray de fermento nacional: Mr. Dheo. SubúrbiosSão quase três da tarde num quente pós-almoço, em dias de Primavera, e Mr. Dheo espera-nos, calmamente sentado, na estação de comboios de Valadares, depois de cruzarmos a ponte do Douro, que separa o Porto de Vila Nova de Gaia. Das janelas do inter-regional vemos já um muro longo, uma parede despida a tijolo, com desenhos coloridos: rostos a spray, palavras garrafais. Um café antes da conversa. E um telefonema. Os dedos deslizam no ecrã do telemóvel da moda. Ouve-se a palavra «Católica» e, de imediato, percebemos: o writer foi convidado para pintar uma parede no Festival Audiovisual Black&White, dessa Universidade, que decorreu no início de Maio. «Tenho tido a sorte de ter muito trabalho», confidencia, lisonjeado. Mudou o horário de expediente para se encontrar connosco. Desde 2005, sobretudo, o currículo engrossou; a agenda ficou recheada.Os muros da fábrica ao lado da estação de Valadares têm trabalhos antigos. Um hall of fame, por trás do arame; no meio, os trilhos do comboio. Vários desenhos, estilos, palavras. «Pensamos nas cores, na temática e esta é uma das grandes mais valias no graffiti: vários artistas a trabalhar numa única tela», contextualiza. «Consegue-se ceder em prol do conjunto final», garante. E aquelas imagens que são homens com rosto ampliado, com texturas que lhe dão vida e realismo, como consegue reproduzi-los? Exímia memória visual? «O hiper-realismo é inalcançável; o meu trabalho é baseado em fotografias; um dia hei-de lá chegar. E este resultado tem uma base: sessenta por cento de estudo e quarenta por cento de improviso.»Há quem pense que o graffiti são rabiscos sujos para quem não tem o que fazer. Provocamos: é? «O graffiti de qualidade exige estudo. Essa ideia é também um bocado o reflexo do país, do que se pensa: as pessoas não imaginam o trabalho que dá.» Admite: preconceito e desconhecimento. Já que deu o epílogo, desenvolva: «Isso passa-se um bocado com as autoridades. Eu nunca vivi uma situação de vida ou morte; de perigo sim, porque na rua estamos sujeitos a tudo; mas a relação dos writers, mesmo os que estão a pintar em muros autorizados, com as autoridades é sempre tensa. É sempre um jogo de negociação. Mesmo quando eles já vêm a correr de cassetete eu fico na minha para perceberem que não vou fugir e que não estou a fazer nada ilegal: estou a fazer a minha arte!»Um negócio?Mr. Dheo, que já foi ASAK - o nome actual surgiu de uma conjugação de palavras, sem intenção lógica, desmistifica - levou-nos escada abaixo, depois da estação. Há um muro que faz curva, seguindo a estrada. Há pássaros em chilreio de tarde, árvores altas a fazer sombra. O muro é outro hall of fame, onde se põe à prova o máximo de técnicas possíveis. «Trago aqui amigos especiais para pintar. O dono da casa autorizou-nos. Era uma parede cinzenta.» Agora: azul-ciano, rosa-fúcsia, pretos, laranjas, verdes: wildstyle (quando as letras gordas ficam selvagens); um homem-sem-rosto reproduzido, uma lollipop deitada, de liga de renda branca; cabeça de vaca. E uma imagem: três rostos obcecados, olhando uma lata de spray como pêndulo hipnotizador; luz pontual.Mas e agora que virou empresário, com clientes como a Reebok, Optimus, FC Porto, Sonae, Hard Club, Super Bock, a rua ainda o seduz? Apressa-se a desmentir uma infâmia. «Sim, sou incapaz de não andar na rua; é a essência daquilo que realmente me deixa feliz.»E a malta não o critica? Graffiti e negócio são compatíveis? A arte «ilegal» a entrar nas galerias, no patrocínio, como mercadoria? «Desde que o artista se mantenha com os mesmos ideais, desde que as empresas manifestem interesse nesse trabalho, ele tem de ter um valor. Se há cada vez mais necessidade de aprimorar técnica e a nossa filosofia de vida é melhorar, também, o espaço público, [o negócio] é um processo natural.» Admite, no entanto, que as críticas possam existir. Um argumento de defesa: «Também não sei qual é a vantagem de andar toda a vida a pintar comboios, a levar com processos.»No ano passado Mr. Dheo personalizou um presente do clube dos dragões para o Arsenal no jogo da UEFA Champions League. Em 2009 ganhou o prémio nacional de indústrias criativas. Fez exposições. Deu workshops. E já recusou trabalho. «A grande vitória para mim é que quem me contrata quer o Mr. Dheo e não um desenho de graffiti qualquer. Consigo manter o meu trabalho e a minha criatividade, não vou pintar a Hello Kitty, não forço nada.» Não tem fórmulas secretas de sucesso, apenas «suor» e «paixão» pelo que faz.E, apesar de os difusores de spray terem diferentes válvulas (riscos mais finos, e mais grossos, quase como pincéis), «a coisa que mais importa na carreira do graffiti é o tempo que leva a ganhar essa sensibilidade com que o dedo pulveriza.» E as mãos dele estão sempre nuas, na vida e a pintar, por isso, com rastos de spray.As tintas não se misturam Mr. Dheo: «Todas as minhas imagens têm sempre um simbolismo, uma mensagem.» Na técnica, autodidacta. «Pesquiso constantemente imagens que visualmente sejam mais apelativas, nisso sou muito exigente.» E aponta para a parede: «Esta imagem originalmente não era assim.» Também improvisa. Onde estamos: a olhar para o muro de uma escola em Leça da Palmeira. Lá, um graffiti, «Opressão»: um rosto central macerado de olheiras pesadas e de boca amordaçada de fita-adesiva; uma boca puxada e um corpo sentado com um saco plástico enfiado na cabeça, com tinta cinzenta a escorrer. Interpretação livre: não falo, não penso, não vejo - não respiro. «Tinha de mostrar este trabalho porque me diz muito», confidencia.Depois de Valadares, Mr. Dheo pegou no carro e trouxe-nos a este canto «especial». São quase seis da tarde e a luz ficou mais polarizada. Aquele cinza na parede, no rosto, a servir de relevo à imagem é diferente. «É branco transparente, assim como há preto transparente. Essa foi uma das grandes invenções das marcas de latas. É como se aplicássemos uma "máscara" no Photoshop para maior efeito de luz e sombras. É que as tintas para graffiti não se misturam, como no óleo, para atingir várias tonalidades.» E quais são os tons de vida de Mr. Dheo? «Há muitas coisas que se fala e publica a meu respeito mas é, para mim, difícil ter essa percepção de reconhecimento. Eu tenho noção do meu valor, claro, mas consigo ser muito autocrítico e muito exigente comigo. Muitos elogios e críticas positivas eu não consigo interiorizar, porque tenho uma visão muito própria sobre o assunto; e a minha necessidade de crescimento pessoal e profissional.» E um enternecimento: «Ainda me surpreendo muito na rua, como aconteceu aqui nesta escola: pessoas de 70 e 80 anos a virem-me agradecer o facto de estar aqui a embelezar um muro.»Guia-nos pelo hall of fame lateral da escola, confidencia desalento, que os trabalhadores independentes como ele são espoliados nos impostos de recibos verdes. Muitos descontos para quem não tem direito a nada. «Adoro o meu país, adoro aquilo que faço e não me vejo a fazer outra coisa, mas...» E fala em jogo de cintura diário. Fala em tornar o país melhor. Só que anda, agora, a apontar o azimute para um salto lá para fora. Ainda não sabe bem para onde: «gostaria!» Mexe na aliança. E deixa um recado: «Não quero que falem do meu nome verdadeiro, sou o Mr. Dheo, é a imagem de marca de um writer.» Como a tinta de spray: há coisas que não se misturam!BYMALODJA«Essa imagem que fotografaste se a usares deves referir que é da crew, não é exclusiva minha», diz o writer Mr. Dheo, depois de darmos o clique para um mural com uma imagem que tem um super-herói (parece uma reinterpretação do Capitão América) e uns bonecos-monstrinhos-coloridos num muro perto da estação de comboios de Valadares. A crew chama-se Bymalodja («bái-me-à-loja») e é o grupo de amigos writers que ele integra, desde final de 2008. Os nomes mantêm-se no anonimato, diz, como quem realça que o todo, o grupo, vale mais que o individual. Importa o trabalho final, de equipa.Há alguns vídeos na internet, pelo YouTube, do grupo a trabalhar em graffiti, como por exemplo o «Bymalodja 1st Production», com música de Emir Kusturica que dá todo o making off da imagem desse «Capitão América», com um grito em balão de diálogo «Bymalodja».

Artigo Original Aqui.

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