“O DJ é um mestre Jedi a manipular os pratos”

A dupla nacional Beatbombers regressou do Campeonato Mundial de DJ, na Polónia, com o primeiro prémio debaixo do braço
Quando Oliveiros Tomás Oliveira – sim, leu bem –, mais conhecido por DJ Ride, soube que tinha conquistado o primeiro lugar no Campeonato Mundial de DJ agarrou o prémio com tanta euforia que até o partiu.

Depois de, em 2010, se terem sagrado vice-campeões na modalidade “Show” para equipas, desta vez os Beatbombers, dupla Caldense, conquistaramo título de campeões do mundo. Acabados de regressar da Polónia, e ainda a recuperar dos festejos, os também campeões nacionais fizeram uma pausa para falar connosco. DJ Ride traz o prémio que ganhou com o seu parceiro Tiago Norte (Stereossauro) debaixo do braço, com um sorriso rasgado e o orgulho difícil de esconder. “Afinal de contas”, consideram, “é um enorme passo para o turntablism nacional”.

Como foi a sensação de serem eleitos os melhores do mundo?
DJ Ride (R): Parece que descemos cá abaixo e estamos na câmara de descompressão. Ainda me estou a habituar à ideia de sermos campeões do mundo. É uma coisa mesmo forte, porque é o resultado de anos de esforço e dedicação. Bolas, entrámos para o Hall of Fame do Scratch e do DJing internacional.
O que distinguiu os Beatbombers neste campeonato?
R: Um campeonato é sempre relativo. A música é para ouvires, sentires, não para dissecar. Nunca fiz música a pensar numa avaliação. Mas claro que levámos uma estratégia. A técnica conta muito, a musicalidade também, mas a dinâmica e a relação com o público são a chave. Este ano foi intenso, com muito drum and bass, dubstep e mais power. Queríamos que as pessoas no final ficassem eufóricas. Quando a guitarra do Carlos Paredes entrou, o público na Polónia notou logo que aquilo era uma raiz tuga e reagiu. Este ano não queríamos dar nenhuma hipótese às outras equipas, por isso apostámos na nova linguagem.
Stereossauro (S): Temos uma vantagem em relação às outras equipas porque já tocamos juntos há muitos anos. Existe um à-vontade enorme, não nos tremem as mãos. As outras equipas tremiam por todo o lado, notava-se que estavam nervosos. Quando um DJ pega na agulha é logo de caras.
Como é que tudo começou?
R: Formámos os Beatbombers quase no início da nossa própria carreira. Somos os dois da Caldas da Rainha, comprámos a mesa de mistura e o gira discos em 2002, com o pouco dinheiro que tínhamos. Um dia encontrámo-nos num concerto de uma banda rap underground e combinámos umas jam sessions. Hoje em dia é o meu irmão mais velho. Nunca mais nos separámos, fizemos álbuns, mixtapes, actuações.
Como tem sido a reacção do público nacional a este prémio?
R: Há uns anos era praticamente impossível fazer aquilo que fazemos hoje. A mentalidade das pessoas e a procura de uma música diferente é muito maior. O público está farto daquele estereótipo de DJ que só vai lá e carrega no play e passa a mesma batida do princípio ao fim da noite. Claro que há bom house e bom techno, mas hoje em dia a malta mais nova quer sair e ouvir dubstep, drum and bass, rock, tudo. Uma mixtape de vários estilos numa noite.
Festejaram muito quando receberam a notícia?
S: Demorei uma semana a recuperar a voz. Foi festejar à grande.
R: Até parti o prémio de o agarrar com tanta força. Vocês nem querem saber o que aconteceu a seguir...
S: A certa altura deixou de haver cerveja e só havia vodka…
R: E uma vodka mesmo boa. Um dos organizadores passou-me uma garrafa para as mãos. Foi das melhores ou piores coisas que podiam ter acontecido, porque a partir daí foi o descalabro. Comecei a correr nu pelo hotel, e o Tiago a fazer breakdance. Foi o êxtase.
Acham que este prémio vos vai abrir as portas?
R: Gostava, mas acho que não. O turntablism continua a ser um pouco como o filho bastardo da música electrónica. É música para um nicho, o que nós fazemos é mais direccionado para os nerds da música electrónica. Passamos horas fechados em casa a treinar a nossa técnica com os discos, não é como os DJ normais que só têm de acertar duas batidas, isso qualquer pessoa em dez minutos consegue fazer.
S: Agora não é qualquer pessoa que consegue usar o gira-discos como instrumento, é preciso ser um mestre Jedi dos pratos. São anos de treino.
R: Hoje em dia a maior parte dos DJ só utiliza o portátil, com programas para acertar a batida automaticamente. Isso cria aquela síndrome do “checking your e-mail”. Não tens bem a certeza se ele está mesmo a tocar ou se está a falar com um amigo no Facebook. Essa parte imediata do DJing fez com que cada vez menos pessoas entrem para o turntablism, porque é preciso muita dedicação e o material é caríssimo.
O DJ é uma espécie de superestrela?
S: Superestrelas são os chefes de cozinha.
R: Acho que 80% dessa cena é fake [falso]. Vivem à custa da imagem e da ligação dos DJ com a moda, o cinema e a televisão. A maior parte nem produz, não têm uma veia criativa. Se queres mesmo ser DJ ou tocar um instrumento, vais-te fechar em casa, vais dar numa de autista e não sais até conseguires dominá-lo. Faltava às aulas para fazer scratch, nem almoçava para ficar com o dinheiro para comprar os discos. Falta isso a esta nova geração, um espírito de compromisso. Os DJ fazem parte da cultura pop. Hoje em dia mais vale contratar um DJ com nome que uma banda, que é bem mais dispendioso.
Consideram que o conceito do artista de música electrónica está a ser banalizado?
S: O DJ é o acordeonista do antigamente. Um gajo sozinho capaz de fazer a melodia e o solo ao mesmo tempo. No fundo é um entertainer. A mim nunca me preocupou porque não somos DJ. Quando tocamos juntos somos músicos, produzimos e fazemos os nossos temas.
R: No meu último álbum já deixei o DJ de lado e assinei só como Ride. De propósito para dar essa ênfase à diferença do nosso trabalho. O lado negativo é a banalização do DJ. Mas se as pessoas tiverem bom senso vão ser capazes de separar as águas.
Então, ao contrário do que as pessoas pensam, um DJ também é um músico?
R: Para nós sim. Não quer dizer que tenhas de dominar todos os instrumentos, mas conhecemos os potenciais e somos capazes de tirar o melhor daquilo que pretendemos. Depois trabalhamos o som digitalmente. Temos de ter uma consciência global da música e do lugar de cada elemento dentro dela.
Em que ocasiões encontram os sons ideais para utilizar?
S: Tenho sempre um papel e uma caneta a jeito. Esteja a trabalhar ou a andar de carro, a ver um filme ou a ouvir discos. Qualquer coisa que me desperte o interesse, mesmo que não tenha nada a ver com música, aponto logo. Não é necessário ouvir discos para ouvir bons sons.
Tudo é válido?
S: Sim. É claro que o vinil é a pedra basilar, é onde encontras a maior parte dos sons que usamos. Mas se houver um som que eu queira e não exista em vinil não vou ficar à espera que o façam. Posso ser eu próprio a tocá-lo. Fazemos os nossos próprios sons com teclados e com todo o tipo de instrumentos.
Então quais são as perspectivas para o futuro?
S: Provavelmente o vídeo vai ser o ressurgimento do giradisquista. A possibilidade de controlar o vídeo com o gira discos, o videoscratch.
R: Sim, eu já estou a estudar esse novo caminho e finalmente há a tecnologia que o permite. O meu próximo trabalho vai ser nessa onda, totalmente groundbreaking [inovador].

 

in I

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